quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A Máquina


“Lá de onde Antonio vem é longe que só a gota. Longe que só a gota no tempo, que é muito mais longe que só a gota no espaço. Por que vim de longe no espaço é lonjura besta que qualquer bicho derrota. Agora vim de longe no tempo é lonjura cabulosa. Lonjura que para ficar desimpossivel demora. Lá no tempo de Antonio o mundo já tinha virado uma doidice. Mas pra se entender direitinho a historia da doidice desse tempo, há de se começar do começo bem longe de anos atrás quando o mundo foi criado.
Tudo era uma seca só, não tinha terra, não tinha céu, não tinha bicho, não tinha gente, não tinha nada. Era só o brew. Aí Deus foi ficando meio enjoado e resolveu criar o mundo. Pensou assim: “Ver que besteira minha: por que é pode ficar tudo sem nada, se eu posso inventar o que eu quiser?”. E saiu inventando...
Primeiro Deus inventou o tempo, que era pra ter tempo de inventar o resto. Em seguida criou o céu pra ter onde morar. E como o céu tinha que ficar em cima de alguma coisa, Deus inventou a Terra pra ficar por debaixo. E Deus pensou: “A Terra vai ficar com o céu em cima e sem nada por baixo, não é?”. Aí Ele pegou o inferno e botou por baixo da Terra.
No começo a Terra só servia pra isso: pra ficar embaixo do céu e em cima do inferno. Foi quando Deus disse: “Oxente!! Já que tem a Terra, tem que botar gente pra morar lá”. E foi assim que Ele criou a vida. E depois que Ele criou a vida, criou junto a morte, porque tudo que é vivo, morre.
“Danou-se”! – Deus pensou na hora – ”Se tudo que é vivo tem nariz, olho, boca, tem que ter uma serventia pra tudo isso”. Os olhos e o nariz já tinham as deles. Os olhos pra olhar pro céu, e o nariz pra respirar enquanto vivo, pra quando morrer, poder morrer em paz. Mas carecia arranjar uma utilidade pra boca e pra orelha, por isso que Deus inventou o verbo. Verbo era como Deus chamava as palavras.
E Deus haja inventar palavra: montanha, rio, riacho, elefante, capim, abacate, saputi, laranja, cravo... Mas como para cada palavra tinha que ter uma coisa. Deus teve que inventar um montão de coisas, pra ficar uma coisa pra cada palavra. Cavalo, capim, elefante, jumento, rio, riacho... E os homens acharam pouco e se voltaram a inventar um montão de coisas. Ihhh! Prego, parafuso, mungunzá, picolé...
Desde o começo do mundo até o tempo de Antônio muita palavra se inventou, muita coisa aconteceu, muito tempo teve que passar até chegar o dia do tempo dele. E desse jeito o tempo de Antônio, como foi chamado esse tempo, o tempo de Antonio começou no dia em que Antônio veio ao mundo....”

Esse texto é do filme A máquina, de João Falcão, baseado no romance de Adriana Falcão. Um filme lindo que assisti esses dias, e como tudo que eu acho lindo e que eu me emociono, não saiu de minha cabeça e dos meus olhos. Teria mais uma noite de insônia se não postasse aqui, já que não posso colocar uma TV na cabeça e sair mostrando o filme pra todo mundo. ¬¬

Geeenteee...assiste corrrrrre. ( Ta, tem dois anos, mas pode ter gente como eu, que não tinha visto ainda ...né?)

8 comentários:

A Outra disse...

ainda não assisti. =P
boa dica.
bjs!

niltim disse...

eu comprei o livro e já li!

Gil disse...

Eu tb nunca vi... Valeu pela dica!
Bjs.

Cafeína disse...

como eu, e adorei o texto. Aliás, tu me inspirou um novo post sobre essa historia mal contada do início dos tempos, em breve vou narrar minha versão rsrs
bjo

Patrícia disse...

Eu vi e senti falta de ser cinema para os olhos de alguém!!
:S

O filme me inspira o amor de verdade!

Celine disse...

Ahh...Já tô com o livro...
:D:D:D

DGirl disse...

Olá!
Não tenho tempo pra ler o texto, tô correndo, mas aproveitei pra passar aqui e te dizer que tbm tô com saudade, que desejo que vc esteja bem e feliz.
Oi C!
Delícia de moça!
Não, nem é uma cantada é apenas uma constatação da realidade.
Delícia de pessoa... adoro quando conversamos.
Assim que der eu volto!
Beijos!!! Muitosss!!!

Anne Louise disse...

Deve ser lindo mesmo..pelo texto trancrito...vou procurar ver..Obrigada pela sugestão,querida!
Grande beijo